quarta-feira, 22 de julho de 2009
Sacanices
segunda-feira, 9 de março de 2009
Say that you'll stay.

Naquele momento em especial, eu não saberia descrever o que eu sentia. Mesmo que eu quisesse. Não é que eu não tenha tentado, mas eu nunca cheguei nem perto da definição. Os braços dele em torno de mim, os meus braços em torno do pescoço dele. Eu apoiei minha cabeça no seu ombro esquerdo de forma tão confortável e isso foi tão espontâneo e sincero. Não importava se eu deveria estar em outro lugar, com outra pessoa. Por mais erradas que fossem, de todas as minhas atitudes aquela tinha sido a mais certa. É meio estranho quando você está no centro de um enozado de histórias e não encontra fuga para seus problemas: foi naquele abraço que eu encontrei o refúgio tão esperado. Meus olhos continuaram abertos e, ainda que cruzassem com vários indesejados rostos conhecidos, pareciam não se aborrecer com nada. Nem lembro das músicas. Com certeza não eram boas. Não era o tipo de lugar que eu freqüentava. Mas, e não falo isso para alimentar um ar romântico, com música ou sem música tudo o que eu ouvia era um silêncio macio e nervoso. Sabe, é aquele silêncio de quem sente o sangue do outro correndo pelas veias, de quem poderia fazer de um piscar de olhos um estrondo, de quem está com o coração na boca. Independente de todas as palavras que eu tivesse ousado dizer ou escrever ou expulsar de mim numa forma de aliviar a angústia, aquele momento foi tão autosuficiente. Não se trata de inexpressão, mas de incredulidade. Ele, de cujas mãos sempre estiveram geladas, me abraçou de forma tão quente. Mas quente de verdade, sem pretensão de transformar isso em um outro acontecimento. Eu gosto de coisas despretensiosas, espontâneas, simplesmente puras. Ele me envolveu de tal forma que fora a primeira vez, talvez, que eu me senti realmente protegida. Ele não sabia o que eu estava pensando - e nem eu sabia, mas foi como se pudesse lidar com isso melhor do que ninguém, lidar com a confusão da minha vida e nem se importar com o sacrifício que isso significava. Eu nunca tinha me sentido satisfeita, mas por algum tempo isso saciou o meu desespero. E me deu medo também. Eu não gosto de pertencer a alguém, não gosto que me alguém tenha controle sobre a minha paz de espírito. Mas, naquele momento, eu nem me importei. O mundo poderia explodir e eu nem me importaria. Eu sabia o quão problemático podia ser se aquele abraço caísse na boca dos outros, sabia que qualquer manifestação teria conseqüências realmente devastadoras. E, o mais admirável talvez, é que ele conhecia isso tão bem quanto eu. Pelo menos naquela hora. E foi um abraço longo, sem medo do futuro ou de um passado insistente. Foi como se ele me impedisse de fazer qualquer movimento, de dizer qualquer bobagem ou mesmo uma verdade. Foi como se eu realmente tivesse alguém que se importasse e que, mesmo contrariado, buscava me entender. E, apesar de eu não ter sido o suficiente, ele nunca me deixou de lado. Foi o único que enxergou em meio a fumaça uma oportunidade. É tão mais fácil fugir, como eu fazia. Ele sabia que estava errado ao me abraçar, como se cansou de ouvir por meses e meses. E a única coisa que eu disse não tomou a proporção que deveria, mas foi totalmente sincera - foi fruto de um impulso que há tempos eu alimentava. Eu quis aquele abraço como ninguém, quis aquela verdade e toda a ansiedade que se fez presente. Guardei o momento em um baú e joguei a chave fora.
domingo, 8 de março de 2009
mistaken
você não vai entender.
e eu nem decidi ainda se quero que alguém entenda.
eu opto por não decidir, na verdade. é menos um erro pra cometer, sabe.
o fato é que, às vezes, eu penso estar com ele quando na verdade eu sou ele.
nós dois não somos "nós", nós somos eu e ele.
mas é como se fosse a mesma coisa.
não é que sejamos tão parecidos ou tenhamos infinitas afinidades, mas a nossa ligação é totalmente emocional.
é incompreensível para qualquer um, é motivo de briga, de ciúme - o suficiente para duvidar de qualquer sentimento.
eu mudei a vida dele, ele mudou a minha.
a gente não sabe disso porque a gente troca palavras, a gente sabe disso porque a gente sente.
ele foi amigo e também foi inimigo.
ele ainda é. só isso.
tem pessoas que estão e pessoas que são.
mesmo com toda a distância, de tempo e quilômetros, ele nunca deixou de ser.
e não é que eu sinta algum tipo de dor ou afeto, eu só sinto o que deveria sentir.
ele sente o mesmo.
é de uma inocência tão absurda acreditar no poder das lembranças...
mas é esse o sintoma que nos acomete - a mágica de um passado de pureza.
pureza nos gestos, nas ações, nos pensamentos.
não é minha culpa se ele faz parte de mim.
não foi minha pretensão arquitetar uma tempestade.
antes fosse tudo isso: seria mais fácil esquecer.
mas nem sempre o que passou, mesmo nesse contexto de passado como um vilão, deixa sombras tão amargas.
basta um pouco de luz para ver o que restou.
só a idéia de algo ter sobrado já resume a satisfação.
é bom se sentir vivo ao relembrar um momento.
são essas pequenas raridades do dia-a-dia que nos fazem diferentes dos demais.
eu e ele somos iguais, não em cabeça mas em coração.
e não é que não possamos nos encontrar em outras pessoas.
é só que fazemos parte um do outro.
e nunca vamos embora. 
sábado, 28 de junho de 2008
Não é você.
"Eu deveria distribuir bulas, como se eu fosse um remédio com caixinha tarja-preta. Seria mais fácil para eu e todo mundo conviver em harmonia, sem esses dramas corriqueiros. Não que o egocentrismo tenha tapado meus olhos a ponto de impedir-me de aceitar a existência de outras pessoas, mas eu realmente penso que é mais complicado comigo - como a maioria deve pensar... Acontece que é tudo previsível. Veja, que legal!, nós nos beijamos. Sabe, nem sempre beijo é tudo na vida. É deprimente ficar entediada e desejar estar sozinha. Ainda bem que isso não parece acontecer com os outros habitantes desse planeta. No fundo, é até meio covarde aceitar ser um pedaço de alguma coisa para alguém que não tem nada, sabe. Quer dizer, é como alimentar vampiros com sangue de cadáver, sabe? E não existe isso de dizer que não sabia, porque a gente sempre sabe quando é importante - ou pelo menos tem um pouco de noção. É tão trágico pensar nessa relação de que mesmo 'sozinhos e felizes' existe a impressão ou curiosidade de como seria se fôssemos nós e mais um ou outro. E você liga a tv, assiste um filme, vai no supermercado e se depara com todo esse sentimento de que 'ok, você está sobrando, baby' - porque não tem ninguém para chamar de baby ou algo mais brega. A minha intenção não é seguir repetindo o que já se sabe, mas enfim, tentar jogar um balde de água fria nessa merda toda de construir e desmoronar. Nos outros animais essa relação macho-fêmea é tão mais objetiva, que inveja! Existe gente por toda parte, gente procurando qualquer coisa, gente sonhando com algo específico, gente ocupada demais com alguma coisa que perto da idéia de amor não é tão importante (tipo a cura da Aids), gente ocupada com qualquer outro pensamento. E, então, eu penso: onde eu me coloco? Porque eu não estou procurando ninguém, não sou exatamente ocupada com nada e metade das coisas que eu digo eu invento na hora. A idéia da bula não é original, mas realmente não é má idéia. Acabaria com a mágica da coisa, mas seria tão mais eficiente aceitar e recusar paixonites alheias como se faz com contatos do Orkut. Não é querer promover a libertinagem, mas o apego emocional inibe tantas sensações. Cruzar a linha é algo tão simples e perigoso quando se fala em relacionamentos - depois que algo começa isso só tende a acabar. Ótimo, renovação! - você pensa, mas a conseqüência chega em uma mala de problemas que te tiram o sono. Pensando na Clementine, na Claudia e numa outra personagem de um outro filme, da linha "que toda adolescente acha meigo", não parece horrível não autorizar alguém a alimentar sentimentos por mim. Isso pode ser encarado como uma sinceridade fria e resumiria muita coisa. "Oi, não quero ter nada com você pois sei que vou ficar entediada" - dizer isso e resistir àquelas frases de efeito comuns, onde a pessoa promete que vai agir de um jeito diferente - isso é triste, uma vez que ela vai pensar em alguma história comum de relacionamento que fracassou entre você e outro alguém. A primeira coisa é pensar que te traíram, a segunda é perto disso - e nunca chegam no real problema. Até por isso eu não acho um crime o típico suspiro de "não é você, sou eu". Afinal, sou eu que escondi todo esse emaranhado de coisas que você me fez ou não sentir. Ou não escondi, como pode acontecer, mas, enfim, você não viu - e isso não é motivo para mais drama e músicas com a letra "mas você não viu...", tipo Pitty. Realmente, perderia a graça escrever um manual... dizer que eu visto cinza nos dias cinzas e preto nos momentos de raiva, comentar que verde ajuda a destilar veneno e rosa é sinônimo de insegurança. O processo de decadência faz parte da evolução, sabe. Eu falo disso, de saber ouvir, entender e crescer. O problema maior é que as pessoas simplesmente trocam as duplas e se esquecem das vezes em que foram ridículas, seja por fazerem ou não alguma coisa. O que me faz agir como um tabuleiro de xadrez é pensar que as jogadas são previsíveis, uma vez que se percebe quem são os jogadores por trás das peças. Mas eu queria dizer que comigo é mais complicado, não é? Então talvez não adiante muito concluir com "não é você, sou eu" como justificativa. Que se foda."
Laurah.
segunda-feira, 19 de maio de 2008
A História de Estella.
O cigarro pressionado entre os lábios bem desenhados, as mãos bonitas ao redor do isqueiro. Fogo, luz fraca e fumaça.
- E aí, como foi?
- Como foi o quê?
- Como assim "o quê?", você sabe...
Lençóis bagunçados; o sujeito se arrastando, beijando as coxas dela.
- Ah, pára com isso.
Ela se levantou, os olhos fixos nas vidraças.
- Não gostou?
- Seria melhor sem essa pergunta.
Pelos buracos da persiana rústica, viu uma mulher com uma criança descerem de um carro azul.
- Ah, volta pra cá. Tá frio, volta.
- Eu não sinto frio.
- É claro que você não está com frio, você ainda está quente...
- Eu disse que eu não sinto frio.
- Cruzes, Estella. Você não sente nada.
Fumaça, o cigarro entre os dedos. Chutou para cima a calça jeans do chão, pegando-a no ar com a mão desocupada. Tal movimento era um hábito.
- Já vai embora? Como assim, onde você vai?
- Eu vou sair. Eu não moro aqui, daqui a pouco sua mulher chega.
- Não, ela vai para a outra casa. Essa daqui está em desuso, você sabe. Eu te disse para ficar aqui de vez e você não quis.
- Eu não quero fazer mais parte da sua vida do que você faz da minha.
Ele se levantou, ainda sem roupas, procurando pisar nos chinelos de couro marrom. Abriu os braços, sugerindo um abraço - que lhe foi negado.
- Você tem ciúmes, é isso?
- Não. Só que eu não preciso disso, eu tenho a minha casa, eu pago as minhas contas. Eu não transo contigo para ganhar recompensas.
- Ah, então pelo menos você gosta.
- Me poupe, Fernando.
Os pés descalços, a mão no telefone.
- Sabe o número de algum ponto de táxi?
- Ah, pára com isso, eu te deixo em casa.
- Não, eu vou sozinha. Só me consegue um copo de alguma coisa.
- Whisky?
- Qualquer coisa.
- Água.
- Que seja. Não, não me abraça. Eu estou irritada.
- Eu sei, eu vi que você se alterou... mas o que houve? Te machuquei?
- Não, é claro que não. Olha só o seu pinto.
- O que tem ele?
- Nada, eu só disse para você olhar.
Risada breve.
- Não é engraçado como vocês, homens, se preocupam com isso? Metade do tempo é consumido pelo toque, a outra metade pela boca. Isso daí é o de menos, e vocês julgam o mais importante.
- Ah, agora você virou feminista... na hora em que...
- Cala a boca e pega a água.
Calçou os tênis sem meia, não estava afim de procurá-las pelo quarto grande e cheio de papéis.
- Eu te levo, está frio. Só me deixa colocar uma camisa.
- Eu vou sozinha.
Bateu o copo na escrivaninha, o que despertou a ira do homem.
- Vem cá, o que está havendo? Eu sempre te tratei bem, você está agindo como uma menina mimada.
- Vai dizer o que, que eu não tenho educação?
- Também.
- Vindo de você isso é realmente engraçado.
Bebeu o resto da água que não fora arremessada para fora do copo.
- Te incomoda o fato de eu ter outra mulher, é isso.
- Me incomoda o fato de eu não ter o que fazer. Eu estou entediada, cansada dessa vidinha mais ou menos. Não gosto de estar contigo, como estou fazendo, não gosto das nossas conversas sem conteúdo, que sempre acabam na cama, de maneira depressiva.
- Depressiva?
Pegou o sutiã do chão, amassando-o para dentro da pequena bolsa de verniz preto. Vestiu uma regata bege que puxou de dentro do armário, na qual veio enrolado um cachecol antigo cor-de-vinho.
- Está frio lá fora, você não vai só com isso. Leva um casaco, depois você me devolve.
- Eu não vou mais te ver.
A fumaça sendo modelada pelos lábios voluptuosos vermelhos.
- Decidiu isso agora, do nada?
- Sei lá. Você por acaso gosta da minha companhia ou não faria diferença se eu fosse outra qualquer?
- Que bobagem, Estella, é claro que eu gosto!
Socou os cabelos longos para dentro da blusa, penteando a franja morena para trás, com os dedos.
- Você é tão bonita, tão atraente, tão sexy. Tá, não me olha assim, eu não quis dizer só isso... sabe, você é superinteressante, provavelmente a garota mais legal que eu já conheci.
- Ah, conta outra.
- É sério... tá, você vai me perguntar sobre o meu casamento com a Suzane, mas eu já cansei de falar que...
- Ela está doente, ela é paranóica, ela isso e aquilo. Vem cá, eu quero ouvir alguma coisa sem ser comparada com ninguém.
- Tudo bem, então. Você é... especial. Diferente.
- Diferente?
- Diferente.
- Ok, e como?
- Diferente como uma garota diferente, ué.
- Diferente como uma garota qualquer diferente, é isso que você quer dizer. Eu sou igual a qualquer uma.
Amassou a bagana contra o rodapé, manchando a parede com as cinzas ralas.
- Ah, não estraga...
- Você tem dinheiro disponível mesmo, não vai fazer diferença se sua mulher não vem aqui olhar.
- Tá, espera, não sai correndo.
- Eu te esperei colocar a camisa e você não fez nada.
- Tá frio... fecha a porta.
- Porque eu deveria ficar se eu tenho mais o que fazer?
Os olhos se cruzaram, sérios e cansados. Silêncio, sem fumaça. Apenas perfume, o perfume dos amantes.
- Última vez. É de verdade então?
- É.
- Eu não sei como agir, eu nunca fiz isso antes. Eu deveria me despedir?
- Não seja ridículo, nós não temos um caso de amor.
- Mas eu gosto de ti.
- Fazer listinhas e enumerar qualidades... isso não torna ninguém especial.
- Qual seria a melhor resposta?
- É simples: você gosta de mim porque eu sou eu.
Ele riu brevemente, mas o gesto não foi acompanhado.
- Aristóteles?
- Você é mais velho mas não tem maturidade mesmo. Eu não me enganei.
- Hey, eu prometo que vou te tirar dessa... espera só mais um pouco...
- Mas eu não quero ser sua mulher. Eu estou cheia, você não entendeu? E não é só de você não, é de tudo. Eu tenho que tomar um rumo.
Silêncio, olhos baixos.
- Quer um café?
- Não. Foi assim que tudo começou, há dois anos, com essa mesma frase.
Olhos tristes.
- Foi porque eu não te liguei na virada do ano?
- Foi porque o meu coração nunca bateu.
- Eu sinto muito se...
- Não, você não sente. Mas a culpa não é sua, porque eu não sinto também.
- Então está tudo resolvido, tão simples assim?
- É.
Barulho de um celular vibrando sobre um móvel.
- É a Suzane...
- Tudo bem, atende.
- Só não vai embora, eu falo rapidinho com ela.
As falsas declarações de saudade de Fernando foram a última coisa que Estella ouvira antes de bater a porta da frente da casa. O viu na janela, os olhos por entre os buracos da persiana, as mãos agitadas num gesto desesperado, pedindo que ela o esperasse concluir a ligação.
Saiu andando sem rumo, sentindo o frio gelar os pulmões. Não estava satisfeita com a vida que levava, com a certeza de que era um tapa-buracos na vida dos outros - e este era o seu papel, o tempo todo. Não só na cama, mas em todos os momentos se sentia incapaz de alcançar a própria satisfação. Cigarros vazios, assobios vazios, abraços sem calor, diálogos que não diziam nada.
Talvez estivesse na hora de repensar conceitos, traçar planos, mas um carro preto parou ao seu lado, rente a calçada.
- Eu disse para você me esperar, Estella... que teimosia.
"Vou começar mudando de nome". Seguiu indiferente até a quadra seguinte, ignorando o fato de estar sendo seguida.
quarta-feira, 26 de março de 2008
Heartfixers.
"- Você não precisa me prometer coisas.
- Tá, mas eu quero. Não se preocupe, você não está me forçando a fazer nada.
- Eu sei, eu sei que não estou. Só que eu não quero as suas promessas como lembrança.
- Hey, que papo é esse?
- Ahh, não me leva a mal. Nós vamos ficar muito tempo separados, não quero que você se sinta preso.
- Preso? Eu me sinto bem. Vou sentir saudade, só isso.
- Exatamente. Saudade. Você vai estar carente, é natural que sinta vontade de estar com alguém.
- Eu vou querer estar contigo.
- Eu sei, só que eu não vou estar do seu lado... fisicamente, você sabe...
- Tá, mas eu quero estar contigo. Eu não disse 'com uma garota', eu disse 'contigo'.
- Você vai pensar besteira se eu não te ligar algum dia, vai me achar grossa se eu estiver com voz de sono, logo vai concluir que nossa relação mudou... e, então, existirão muito mais atrativos pelo mundo do que aqui, comigo.
- Puxa, tudo isso é pessimismo?
- Eu vou entender se você quiser experimentar com outras pessoas. Sabe, você vai estar num outro país, vivendo algo totalmente novo. Você pode ser quem você quiser, não precisa chegar lá de aliança.
- Isso é vontade de terminar comigo e partir pra outra?
- Não. Só estou mostrando o meu não-possessivismo.
- Você pretende ficar com outras pessoas enquanto eu estiver fora?
- Não planejo nada. Você sabe o que eu penso. Só não quero que você se sinta preso e infeliz por algo que um dia te deixou aparentemente bem.
- Aparentemente? Não acredita que eu esteja feliz?
- Eu não disse isso. Olha, serão meses... você pode encontrar uma pessoa mais legal por lá, pode conseguir um emprego maravilhoso, nunca se sabe...
- Então seus planos de me visitar e talvez ficar lá de vez nunca aconteceram?
- Eu só quero dizer que prefiro deixar tudo acontecer como deve ser. A gente vai acabar se machucando, mais cedo ou mais tarde.
- Então isso é um adeus?
- Não. No máximo um "até logo". Eu quero que você aproveite tudo o que puder e depois volte pra mim, se ainda quiser. Prefiro que a gente deixe tudo esfriar agora, de um jeito meio rápido. É melhor do que viver aquele sadomasoquismo lento que é a ruína de um casal...
- Ótimo. Perfeito. Brilhante, cara. A minha viagem dos sonhos virou uma passagem para a dor de cotovelo. Pelo menos vamos estar longe um do outro, não nos cruzaremos pelas ruas...
- Você aceitou bem rápido para quem não queria me perder.
- Acho que já te perdi há muito tempo, porque nunca te ganhei totalmente.
- Realmente. Eu não pertenço a você.
- Você fala isso com essa cara deslavada? Ah, pára...
E então ele foi embora, pensando que eu era algum tipo de garota malvada. Dessas que acabam contigo num momento de fraqueza, algo assim, foi o que ele disse. Não, não era o amor da minha vida, se é que isso existe. Foi melhor assim. Talvez um dia ele perceba que fiz isso porque gostava dele e não queria ver a relação esfriar gradativamente, sabe, como conseqüência de coisas que não poderíamos mudar, pois não estavam ao nosso alcance. No fundo, não foram muitas as lágrimas. Eu falo isso porque já imaginei como ia acontecer, sabe, o famoso momento da decadência, onde você tenta salvar tudo antes que a coisa naufrague totalmente. E eu penso que, se você sabe que vai acabar, não vale a pena investir. Talvez seja um pouco de conformismo, mas eu acredito que muitas vezes o tempo não gasto vale mais do que alguns momentos de delícias de casal. Me disseram que sou meio estraga-prazeres, meio frustrada. Mas acho que qualquer um agiria do mesmo jeito estando no meu lugar. O que eu quero dizer é que existem pessoas, heartfixers, que acabam se passando por heartbreakers sem querer. Ok, soa pretencioso da minha parte assumir uma postura angelical, mas a idéia é mostrar o outro lado da história. Na maioria das vezes, heartfixers (consertadores de corações, observe a breguice) são uns ferrados. Em outras palavras, eles lutam com as memórias dos ex-casos alheios, auxiliando com o ombro e a mão-amiga e, porque não, a boca. Num dia você está se lamentando pelos cantos, no outro alguém legal te arrasta pro cinema, para alguma festa, para longe das suas dores. Quando a novidade se insere no cotidiano e as coisas fluem, pode ser que ocorra algum afeto entre você e a sua grande amiga heartfixer ou coisa assim. Tudo bem, não preciso ser mais clara: as pessoas tendem a gostar de quem cuida delas, isso é fato. Não é um crime desejar se sentir bem. O problema ocorre quando a relação de compreensão e carinho se transforma num parasitismo. Os heartfixers, quando não são arremessados para o lado obscuro dos finais felizes, resolvem tentar consertar o novo relacionamento do seu (agora mais-que-amigo) ex-fossento (indivíduo que está na fossa). Acabam por tomarem as dores de todo mundo, mais uma vez, ficando com o terrível papel de vilão da história de amor. Vilões são sempre legais até a hora em que se metem com sentimentos, é essa a visão geral. Como eu mostrei, eu tentei consertar as coisas, oferecendo liberdade. Não pensava realmente em beber todas e acordar com um estranho pelado do meu lado, nem ter ataques de ciúme via-telefone ao ouvir sobre uma nova colega ou algo do gênero. Os caras têm mania de oferecer um pedaço de si, um coração destruído e esperar que eu conserte e devolva em bom estado, sem sequer perguntarem se eu preciso de qualquer coisa, um café que seja. Eu não sinto remorso, não sinto remorso. Talvez não devesse reclamar tanto, afinal nunca me entrego mesmo. Não em uma relação onde eu veja a linha do fim. Nunca vivi nada que parecesse realmente infinito. Mentira, vivi sim. Mas isso não me causou dores, não me fez mais amarga, nem heartbreaker. Talvez eu devesse aproveitar mais minha liberdade e não me sentir tão parasita de almas perdidas."
