sábado, 31 de maio de 2008

Tallulah.

As mãos do pianista não descansaram sobre seus joelhos nenhum instante, embora não fossem muitos os que dançavam as lindas músicas. Belas mulheres, esculpidas por vestidos majestosos, rodeadas de imponentes homens cujos trajes traziam insígnias reluzentes. A noite de lua cheia fora esquecida dentro do castelo, onde o burburinho das senhoras e as risadas dos homens mais velhos ecoava por todos os cômodos.

Da Sala de Armas saiu um homem apressado, ajeitando os cabelos longos para dentro do pedaço de fita. Pela expressão, notava-se seu atraso para a cerimônia. Desceu as escadas aos pulos, diminuindo o passo nos últimos degraus. Procurava ansioso uma dama por quem se encantara há muito, desde que os dois eram crianças. Tinham sido afastados quando a família dela resolveu ocupar novas terras, fruto de alguma herança misteriosa.

Breve silêncio - o pianista foi descansar, se servir do que sobrara do banquete. Era um jovem viúvo, capaz de receber um ou outro olhar devasso das moças mais atrevidas, que nunca realmente conheceram o significado de honra. Passou por uma mesa coberta de cálices vazios, onde um casal meio embriagado trocava palavras no ouvido um do outro. Reconheceu outra jovem a sua frente, cujo vestido não era claro nem brilhante como o das demais.

- Não te vi dançar.

Ela sorriu graciosa, fechando os olhos ternamente antes de voltar à posição inicial - os braços cruzados e o rosto sério. Devia ser a única que realmente respeitava o trabalho do músico, colocando-o em um nível de importância acima de qualquer outro ofício - apesar de gozar da riqueza, não sentia necessidade e nem via razão no luxo. Passava a maior parte do dia montada em um cavalo, ao contrário das damas que desde cedo se concentravam em bordar seus enxovais.

Os trajes em cor diferente fizeram um terceiro homem ser notado na porta principal, que dava acesso aos jardins. Não era da Família Real, mas todos que moravam na região o conheciam como um nobre viajante, hóspede de um importante amigo do rei. Não estava disposto a perder o grande baile, mas tinha um motivo diferente para isso: o prazer de beber e comer à vontade, com boa música e donzelas à disposição lhe parecia ínfimo.

Tocou o chão com rapidez - os olhos fixos na jovem que tanto procurara, na tentativa de não perdê-la de vista (nunca mais). Atravessou o salão, desviou de candelabros e empregados, se desvencilhou de crianças e cadeiras que obstruíam seu caminho. Sorriu afoito, lhe faltava o ar - a idéia de ter tão perto novamente sua preciosa menina, a única que um dia arrancara dele uma promessa.

Os dedos pálidos voltaram a tocar as teclas esmaltadas, produzindo uma melodia doce e convidativa. O salão, visto do alto, parecia recheado de babados coloridos, que rodopiavam alegremente de um lado para o outro. Parecia preencher todos os espaços, mas o pianista sabia que o vazio sob o grande lustre de cristais só era digno de uma das mulheres presentes.

Para Tallulah, o viajante era um desconhecido qualquer. Para ele, ela poderia ser apenas uma aventura - e que desperdício, pensariam os observadores. Mas quis o destino manter os dois separados, infelizmente, mas enlaçados por semelhanças ainda não descobertas. De um homem curvado diante da linda dama surgiu um convite inesperado. Não foi recusado, nem aceito com louvor. Ela não queria dançar, não aquela música. Além disso, ainda que não fosse sua intenção mencionar, estava claro que ela esperava ter a companhia de outra pessoa.

Ele se mostrou desapontado e ofendido, lamentando que ela estivesse prometida a outro homem. Não estou, ela respondeu, analisando-o com atenção. Sua fisionomia não lhe era desconhecida, mas fugia-lhe da memória a identidade de seu galante admirador. Perguntou seu nome, mas a resposta foi negada. Arriscou palpites, mas nenhum com muito sucesso. Ouviu, então, uma longa e dramática história, sobre percorrer campos durante dias e noites sem fim e enfrentar uma série de infortúnios - tudo para vê-la mais uma vez, tocar sua pele e ter a certeza de que a mulher dos seus sonhos era real e tinha aroma tão bom quanto o da lembrança.

Se amaram no passado, mas o tempo lavou qualquer resquício de paixão que impedisse Tallulah de lutar por sua liberdade - não gostava de se ver presa às coisas, resistia às inevitáveis e constantes ofertas de casamentos, cada um com um plano de futuro promissor mais pomposo que o outro. Só não era considerada a vergonha da família por ser realmente a mulher mais bonita do reino, o que conferia uma série extra de adjetivos. Ela não só se espantara com a confissão em que se transformaram suas brincadeiras inocentes de infância, como deixara isso transparecer em seus gestos enquanto se explicava, um tanto impaciente.

O homem das vestes azuis interrompeu a conversa, silenciando os dois - os olhos do outro faiscando. Tomou o braço de Tallulah gentilmente, esboçando um sorriso. Não fora tímido ao fazer um sinal para o pianista que, consentindo, alternou a escala de notas musicais, dando início a uma nova sonata... diferente e um tanto especial, que nunca fora apreciada antes. Todos os penteados não faziam sentido, nem rendas, nem jóias: quem tivesse a delicadeza de apreciar as feições do casal que se encaixava na coreografia entenderia que nem tempo nem distância seria capaz de separar os dois desconhecidos - amantes em silêncio.

"Tallulah, it's easier to live alone than fear the time is over..."
Sonata Arctica




quinta-feira, 22 de maio de 2008

heroína.

Duda regurgitou a comida, vomitou os comprimidos, bebeu tudo que podia beber e passou a manhã indo e voltando do banheiro. Azia e tédio. Pensou em recorrer ao casal gay de amigos que, vez ou outra, faziam o papel dos pais dela, mas a preguiça de se levantar do tapete felpudo e caminhar até o telefone era maior.

Dormiu por cerca de duas horas, a baba escorrendo pelo canto da boca. Era realmente uma garota muito bonita, dessas que, de uma hora pra outra, resolvem tingir o cabelo loiro de laranja e cortar a franja - como se acordassem para a vida ao se encontrar numa foto de revista.

O ringtone psicodélico a fez despertar dos sonhos escrotos, obrigando-a a procurar o celular em meio as folhas de papel vegetal. Plantas e mais plantas de apartamentos luxuosos, desses cujos panfletos são distribuídos nas sinaleiras das capitais, por moças de bonés e calças laranjas que, provavelmente, não foram muito sortudas na vida.

Recebeu uma mensagem de texto anônima, onde uma suposta colega de faculdade afirmava ter visto o namorado de Duda com outra pessoa, numa festa na noite passada. Não fora uma surpresa, afinal qualquer mal-feito é esperado quando um relacionamento não está bem. A confirmação pelos olhos da amiga fez Duda sentar no sofá, tentando se equilibrar e se livrar da tontura. Quanto mais lúcida estivesse melhor: fazer as coisas de modo impulsivo só faz piorar as conseqüências.

Em dois segundos desesperados já estava atracada no telefone, discando a única seqüência numérica que decorara nos últimos cinco anos. Quando informou que queria falar com Lilian ouviu sua voz sair fraca e tremida, o que ligeiramente a deixou envergonhada. Há muito deixara de ser uma boa companhia na visão dos pais da amiga. A bulimia e as constantes vezes em que fez escândalos por motivos insuficientes contavam pontos nessa observação.

Lilian não estava em casa, mas isso não impediu Duda de encontrá-la.
- Pode falar?
- Sempre. Que foi, cara? Tá de porre?
- Não, não é isso, não...
- Hum... Tá, fala rápido.
- Olha só, aquilo que eu te disse do Marcos... A Jô, eu acho, viu o Marcos ontem com uma vadia, cara.
- Vadia? Tá, mas ela viu a...?
- Ah, nem sei. Mas tanto faz, cara... sério, eu nem sei que que eu faço primeiro...
- Hum... mas, olha só, nem faz nada ainda, cara. Ele é um merda total né, nem podia ter feito isso contigo. Não deixa barato, cara... só pensa antes no que tu vai fazer.
- Ai meu, sei lá. Que filho da puta. Tipo assim... vontade de matar os dois, saca?
- Hum? Fala direito, porra. Tu tá falando toda errada.
- Eu quero ver quem é a vadia... e ele vai me dizer que porra é essa que ele tá fazendo, porque eu nunca fiz nada pra ele resolver fazer isso assim... ah, vai dizer, eu sou tri.
- Sim, cara. Eu te amo, cara, nem posso falar nada. Na boa, acaba com ele assim do nada e dá o troco. Nem precisa dizer que tu sabe o que houve e tal... ou sei lá, começa a sair com o Caio, que ele odeia e tal...
- Sim, eu vou ver ele hoje mesmo. E o filho da puta vai ficar sabendo.
- Tá, ele vai dormir aí?
- É né, óbvio.
- Ah, bela vingança então. Na boa, é o melhor que tu tem a fazer... porque ficar chupando dedo ou mostrando que tu se importa também nem eras né... o Marcos é muito otário de fazer isso contigo.
- Isso que eu pensei, cara! Eu não vou ficar chorando por causa dele e tal.
- Ah, meu, vou desligar.
- Tá, depois eu te ligo. E, olha só, se o Marcos falar contigo deixa quieto né, age normalmente...
- Sim, certo. Tchau, beijo.
- Ai, meu, tu é tudo! Beijo.

Lilian colocou o aparelho na borda da piscina, mergulhando em seguida para molhar o cabelo, que havia secado durante a conversa. Sorriso ansioso, entre o sentimento de felicidade e nervosismo. Vendo que o rapaz se aproximava, trazendo um copo em cada mão, ela brindou internamente mais uma conquista: "A Jô, eu acho, viu o Marcos ontem com uma vadia", pensou, rindo da inocência da jovem de cabelos repicados desbotados. Nada como um aparelho de celular cujo número não esteja na agenda do destinatário...

Ele entrou na piscina, indo de encontro às costas de Lilian. Um beijo delicado e uma pergunta: quem ligou? Ela contou sobre Duda, comentou o quão desequilibrada andava a amiga - que acordara meio enjoada e precisava da ajuda dela para resolver uns problemas.
- Tá, eu vou ser sincera: ela quer te pedir desculpas pelas merdas e tal. Eu acho que ela realmente se arrependeu, sabe, ela é meio imatura às vezes, mas é boa pessoa.
- Do nada isso? Ela sempre quer brigar por qualquer coisa, a troco de que ela resolveu que estava errada?
- Ela é orgulhosa, mas ela sabe que estava pegando demais no teu pé, Marcos. Além do mais, ela gosta de ti pra caralho, não ia querer deixar essa distância entre vocês.
- Hum... é, pode ser. Ela já correu atrás antes, né? Pelo menos ela não desconfia de nada.
- Da gente? Não, nunca... E eu falei pra ela mil vezes que tu é um cara legal, que isso e aquilo... Opinião de amiga é o que conta, né? Então, eu cresci com ela, cara, eu sei do que eu tô falando... Ela tá super na tua.
- Ah, sério, tu é foda. Super cretina, mas muito foda.
- Mas, assim, fica comigo aqui e depois que tu me deixar em casa passa lá...
- De noite?
- É, faz uma visita. Não custa nada... e tu ainda se passa por namorado superpreocupado, já que ela andava exagerando na dose, né.
- Sim, eu vou ver se vou lá e tal... mas a gente tem tempo até lá...

O final da história não é necessariamente feliz. Sendo ficção, é ótimo fazer com que tudo dê certo: Marcos resolve aparecer na casa da namorada, encontrando Duda aos beijos com Caio. Ela se sentindo vingada e não exatamente enganada, ele um tanto contrariado com a cena. Ambos pensaram em Lilian como uma heroína, cada um com seus motivos particulares e errôneos: braços abertos o tempo todo parecem ser realmente um privilégio impagável.




quarta-feira, 21 de maio de 2008

Olhar Crítico

Eu não sei o que se passa: pensei que talvez fosse a falta de um espelho, mas eu me conheço bem o bastante, reconheço os meus defeitos. Sem cerimônia. Acontece que eu não gosto quando algo ou alguém tira de mim (a exclusividade de) algumas ações (ou funções). Quer dizer, não era essa a minha idéia inicial dos fatos... Se eu não gosto de uma determinada característica de um amigo meu eu não vou ficar feliz em ter isso como semelhança entre eu e um estranho qualquer. É quase como se eu tivesse o direito de não gostar, mas o dever de proteger quem está do meu lado (?). Esse foi meu primeiro pensamento. Depois, horas depois, sabendo que talvez soasse meio falso o primeiro, pensei numa segunda justificativa: é bom ter inimigos íntimos (seja lá o que isso quer dizer - me pareceu tão interessante, huhu...). A velha história de que não existe felicidade em duelar com uma pessoa fraca - tá, se existe mais de um predador pra mesma presa a moral da história passa a ser a estratégia, onde não se tira um olho da presa, mas se colocam os dois sobre o oponente (?). Ok, acordei falando grego.

Ah, eu fico de mau-humor por qualquer coisa. E, principalmente em dias 'cinzas', a tendência é não só observar as pessoas com o intuito de decifrá-las, mas algo do tipo "vou te desmascarar, magrão" - e nisso se enumeram uma série de defeitos sobre o pobre tio que cruzou comigo na rua, por exemplo. É nojento mesmo, eu reconheço. E eu não faço isso como uma alternativa de inflar o ego, a partir do momento em que eu reconheço pontos negativos nos outros. Eu prefiro pensar que eu apenas falo o que muita gente deixa quieto. No fundo, metade das coisas não feitas ou não ditas são por medo de repreensões bobas, do tipo "nossa, que feio o que você disse/fez, Fulaninho".




segunda-feira, 19 de maio de 2008

A História de Estella.

O cigarro pressionado entre os lábios bem desenhados, as mãos bonitas ao redor do isqueiro. Fogo, luz fraca e fumaça.
- E aí, como foi?
- Como foi o quê?
- Como assim "o quê?", você sabe...
Lençóis bagunçados; o sujeito se arrastando, beijando as coxas dela.
- Ah, pára com isso.
Ela se levantou, os olhos fixos nas vidraças.
- Não gostou?
- Seria melhor sem essa pergunta.
Pelos buracos da persiana rústica, viu uma mulher com uma criança descerem de um carro azul.
- Ah, volta pra cá. Tá frio, volta.
- Eu não sinto frio.
- É claro que você não está com frio, você ainda está quente...
- Eu disse que eu não sinto frio.
- Cruzes, Estella. Você não sente nada.
Fumaça, o cigarro entre os dedos. Chutou para cima a calça jeans do chão, pegando-a no ar com a mão desocupada. Tal movimento era um hábito.
- Já vai embora? Como assim, onde você vai?
- Eu vou sair. Eu não moro aqui, daqui a pouco sua mulher chega.
- Não, ela vai para a outra casa. Essa daqui está em desuso, você sabe. Eu te disse para ficar aqui de vez e você não quis.
- Eu não quero fazer mais parte da sua vida do que você faz da minha.
Ele se levantou, ainda sem roupas, procurando pisar nos chinelos de couro marrom. Abriu os braços, sugerindo um abraço - que lhe foi negado.
- Você tem ciúmes, é isso?
- Não. Só que eu não preciso disso, eu tenho a minha casa, eu pago as minhas contas. Eu não transo contigo para ganhar recompensas.
- Ah, então pelo menos você gosta.
- Me poupe, Fernando.
Os pés descalços, a mão no telefone.
- Sabe o número de algum ponto de táxi?
- Ah, pára com isso, eu te deixo em casa.
- Não, eu vou sozinha. Só me consegue um copo de alguma coisa.
- Whisky?
- Qualquer coisa.
- Água.
- Que seja. Não, não me abraça. Eu estou irritada.
- Eu sei, eu vi que você se alterou... mas o que houve? Te machuquei?
- Não, é claro que não. Olha só o seu pinto.
- O que tem ele?
- Nada, eu só disse para você olhar.
Risada breve.
- Não é engraçado como vocês, homens, se preocupam com isso? Metade do tempo é consumido pelo toque, a outra metade pela boca. Isso daí é o de menos, e vocês julgam o mais importante.
- Ah, agora você virou feminista... na hora em que...
- Cala a boca e pega a água.
Calçou os tênis sem meia, não estava afim de procurá-las pelo quarto grande e cheio de papéis.
- Eu te levo, está frio. Só me deixa colocar uma camisa.
- Eu vou sozinha.
Bateu o copo na escrivaninha, o que despertou a ira do homem.
- Vem cá, o que está havendo? Eu sempre te tratei bem, você está agindo como uma menina mimada.
- Vai dizer o que, que eu não tenho educação?
- Também.
- Vindo de você isso é realmente engraçado.
Bebeu o resto da água que não fora arremessada para fora do copo.
- Te incomoda o fato de eu ter outra mulher, é isso.
- Me incomoda o fato de eu não ter o que fazer. Eu estou entediada, cansada dessa vidinha mais ou menos. Não gosto de estar contigo, como estou fazendo, não gosto das nossas conversas sem conteúdo, que sempre acabam na cama, de maneira depressiva.
- Depressiva?
Pegou o sutiã do chão, amassando-o para dentro da pequena bolsa de verniz preto. Vestiu uma regata bege que puxou de dentro do armário, na qual veio enrolado um cachecol antigo cor-de-vinho.
- Está frio lá fora, você não vai só com isso. Leva um casaco, depois você me devolve.
- Eu não vou mais te ver.
A fumaça sendo modelada pelos lábios voluptuosos vermelhos.
- Decidiu isso agora, do nada?
- Sei lá. Você por acaso gosta da minha companhia ou não faria diferença se eu fosse outra qualquer?
- Que bobagem, Estella, é claro que eu gosto!
Socou os cabelos longos para dentro da blusa, penteando a franja morena para trás, com os dedos.
- Você é tão bonita, tão atraente, tão sexy. Tá, não me olha assim, eu não quis dizer só isso... sabe, você é superinteressante, provavelmente a garota mais legal que eu já conheci.
- Ah, conta outra.
- É sério... tá, você vai me perguntar sobre o meu casamento com a Suzane, mas eu já cansei de falar que...
- Ela está doente, ela é paranóica, ela isso e aquilo. Vem cá, eu quero ouvir alguma coisa sem ser comparada com ninguém.
- Tudo bem, então. Você é... especial. Diferente.
- Diferente?
-
Diferente.
- Ok, e como?
- Diferente como uma garota diferente, ué.
- Diferente como uma garota qualquer diferente, é isso que você quer dizer. Eu sou igual a qualquer uma.
Amassou a bagana contra o rodapé, manchando a parede com as cinzas ralas.
- Ah, não estraga...
- Você tem dinheiro disponível mesmo, não vai fazer diferença se sua mulher não vem aqui olhar.
- Tá, espera, não sai correndo.
- Eu te esperei colocar a camisa e você não fez nada.
- Tá frio... fecha a porta.
- Porque eu deveria ficar se eu tenho mais o que fazer?
Os olhos se cruzaram, sérios e cansados. Silêncio, sem fumaça. Apenas perfume, o perfume dos amantes.
- Última vez. É de verdade então?
- É.
- Eu não sei como agir, eu nunca fiz isso antes. Eu deveria me despedir?
- Não seja ridículo, nós não temos um caso de amor.
- Mas eu gosto de ti.
- Fazer listinhas e enumerar qualidades... isso não torna ninguém especial.
- Qual seria a melhor resposta?
- É simples: você gosta de mim porque eu sou eu.
Ele riu brevemente, mas o gesto não foi acompanhado.
- Aristóteles?
- Você é mais velho mas não tem maturidade mesmo. Eu não me enganei.
- Hey, eu prometo que vou te tirar dessa... espera só mais um pouco...
- Mas eu não quero ser sua mulher. Eu estou cheia, você não entendeu? E não é só de você não, é de tudo. Eu tenho que tomar um rumo.
Silêncio, olhos baixos.
- Quer um café?
- Não. Foi assim que tudo começou, há dois anos, com essa mesma frase.
Olhos tristes.
- Foi porque eu não te liguei na virada do ano?
- Foi porque o meu coração nunca bateu.
- Eu sinto muito se...
- Não, você não sente. Mas a culpa não é sua, porque eu não sinto também.
- Então está tudo resolvido, tão simples assim?
- É.
Barulho de um celular vibrando sobre um móvel.
- É a Suzane...
- Tudo bem, atende.
- Só não vai embora, eu falo rapidinho com ela.
As falsas declarações de saudade de Fernando foram a última coisa que Estella ouvira antes de bater a porta da frente da casa. O viu na janela, os olhos por entre os buracos da persiana, as mãos agitadas num gesto desesperado, pedindo que ela o esperasse concluir a ligação.
Saiu andando sem rumo, sentindo o frio gelar os pulmões. Não estava satisfeita com a vida que levava, com a certeza de que era um tapa-buracos na vida dos outros - e este era o seu papel, o tempo todo. Não só na cama, mas em todos os momentos se sentia incapaz de alcançar a própria satisfação. Cigarros vazios, assobios vazios, abraços sem calor, diálogos que não diziam nada.
Talvez estivesse na hora de repensar conceitos, traçar planos, mas um carro preto parou ao seu lado, rente a calçada.
- Eu disse para você me esperar, Estella... que teimosia.
"Vou começar mudando de nome". Seguiu indiferente até a quadra seguinte, ignorando o fato de estar sendo seguida.




quarta-feira, 14 de maio de 2008

Por trás do véu

Não que alguém esteja interessado (bom, eu espero que sim), mas eu cheguei em casa com uma vontade de falar sobre como são as (minhas) aulas de dança do ventre. Ah, de repente não é nada demais o que eu vou dizer, mas com certeza eu esperava que as coisas acontecessem de outro jeito. Direto ao ponto que eu quero chegar: se você pensa que o ambiente é digno de cenário do Kama Sutra ou, sei lá, todas as aprendizes são gatonas e estão sempre seminuas, bem... melhor não prosseguir em caso de ultra sensibilidade.

Eu já passei por dois "estúdios" (eu chamava de escola, mas estúdio é tão mais chique), um que funciona como um (hum...) centro de danças e essa coisa toda e o outro dirigido mesmo para o lado oriental da coisa. Eu não vou me prestar a falar do lado cultural, dizer as sete cores oficiais dos sete véus, dos elementos, das mil 'correntes' se assim posso chamar e afins... As danças mais conhecidas talvez sejam as do punhal, da espada, da cobra, dos véus - mas os tarados de plantão adorariam presenciar umas coreografias onde a moça faz topless e coisas assim. Tá, eu disse que não ia ficar falando disso.

Ok, vou ser sincera e broxar tudo: num dia de frio, tu encontra tias (eu disse tias) com polainas, legging laranja, mil blusões com bolinhas, meias estranhas, casacos gordos inflados, ou - o que é pior e acontece sempre em dias de calor - miniblusas. Oh, mas o que seriam das dançarinas sem as barriguinhas à mostra? É, eu não sei, afinal te ajuda um monte na hora de entender o movimento a fazer... Só que, por experiência própria, eu descobri que gelatinas alheias atrapalham a concentração. Tecido adiposo em excesso não é pilha, não mesmo!

Eu vou sair de trás do balcão (?) e dizer que eu também não fico pra trás. No fundo, é realmente muito curioso o ambiente todo e aquele mulherio. É tão pessoal tudo: mesmo que a coreografia seja única, cada corpo desenvolve um ritmo, cada mãozinha adquire seu charme (ou não), cada mulherzinha parece ser realmente diferente da outra. Onde eu fazia antes, eu era colega de umas quatro ou cinco colegas de trabalho: o que não era muito agradável, não só pela diferença de idade (o que eu considerei um aspecto positivo no início) - e, como conseqüência, reclamações de minuto a minuto de dores nas costas e afins -, mas porque realmente ficava um grupo muito fechado. E eu. Enfim, nenhuma das partes foi muito amigável. E duas delas resolveram viajar, as outras resolveram pausar o curso e adeus Ivy. Tudo bem, eu me irritei com várias coisas e parei de fazer.

Ah sim, eu ia dizer que a roupa mais confortável (for me) de fazer dança do ventre é sapatilha com meia (o que não é realmente nada sexy), a minha saia gigante roxa e, hum, camiseta camuflada (y). Pior que fica uma coisa mega estranha, tipo "oi oi, adoro metal" ou algo assim. Como eu coloco meias e sapatilhas pretas aquilo acaba parecendo um coturno magro aos meus olhos míopes. Enfim. Fora os mil lenços e chales (ch ou x?) coloridos e recheados de moedas (que, quando não fazem um barulhão, ficam caindo pelo chão).

Me perguntaram o que a gente fazia, "fora deslocar o quadril" - o que me sugeriu uma cena de, sei lá, carinhas do kung fu (kung fu fighting!) dando socos e chutes no quadris femininos... Tá, no fundo tudo o que tu faz é aprender coisas quadradas para desenvolvê-las e torná-las redondas (é o que eu sempre digo, mas em outras palavras). Tem horas que parece que tu vai comer alguém, ou parir, ou que tu vai perder teu ombro, teus joelhos, teu dedão do pé... Eu estou começando a achar que minha idéia de esclarecer a aula foi infeliz. Queria mesmo falar da tia do legging laranja, que por sinal é a mesma da miniblusa com casaco inflável e barrigão. E ela usa um treco amarrado em torno da bunda que é vermelho com amarelo-ovo e penduricalhos gigantes e dourados, que fazem um barulho realmente alto (tipo aqueles móbiles que, com o vento, insistem em te fazer tremilicar, de tão agudo que é o som).

É engraçado tentar se coordenar. Principalmente quando você tem que formar letras balançando o (hum... enfim, os peitos) ou mexer a cabeça no estilo Fat Family. E tem movimentos bizarros, que estão longe de serem sensuais. E, não podia deixar de falar, a competitividade é algo assim impressionante. Tudo bem que eu já tenho esse olhar mais reprovador pra quase tudo, mas se alguém me disser que aquilo lá é meigo... Muita mulher junta só pode dar nisso. E críticas ao universo masculino, é claro. Haha. E dicas sexuais e coisas pervertidas do gênero. Fora que 99,9% das alunas tem aquele sonho em dançar pro "maridão", fazer 'aqueeela apresentação' no dia dos namorados e coisas do gênero (não que eu seja assexuada, eu apenas escuto e acho engraçado)... Vale também falar da novela, criticar outras dançarinas (aquela puta!) e vender produtinhos (incrível como existem revendedoras da Avon e artesanato).

Acaba a aula e, depois de vinte tipos de alongamento, te dá muita vontade de chegar em casa e assistir O Clone ou algo assim. E as poucas músicas que eu achei traduzidas tinham letras realmente boas (vai saber, eu esperava que fosse uma espécie de É o tchan em hebraico). As pessoas são realmente diferentes. Eu fiz aulas em umas milhões de turmas, já me impressionei com as garotas inesperadas que se encontram por esses lugares da vida: grávidas do reggae, góticas extremamente tatuadas, vovós de cabelo vermelho, quarentonas de academias de ginástica, seres estranhos do período paleolítico... enfim, não são Jades e Hadijjas. Eu esperava que fosse algo mais homossexual, do tipo "te vejo na rua e meu gaydar grita", mas não é. Até crianças fazem, oh god. Em pensar que odalisca é praticamente um palavrão...

It's over. :)



terça-feira, 13 de maio de 2008

Tópico dos Tópicos

Olá.

Eu estou estudando. Estudando, estudando, estudando. Não, não é tanto quanto parece: eu também durmo, como, tomo banho, tenho tarefas domésticas, tenho que me locomover até o cursinho para assistir aulas (eu sei que é óbvio, mas eu queria acrescentar coisas), até o estúdio de dança do ventre (onde, bem... eu danço - háá, te peguei nessa, ein!), até o curso de inglês, até algum lugar mais que eu resolva ir fazer alguma coisa. Sim, eu tenho orkut e flog, eu vejo pessoas, eu converso com elas, eu me preocupo igualmente.

Eu falo isso porque, para alguns, parece que eu sumi do mapa, fugi pro Afeganistão, sei lá. É da minha natureza ficar quieta, esquecer de levantar a bandeira branca, essas coisas... quer dizer, o tempo passa e, aparentemente, eu sigo na minha inércia. Eu realmente não devo parecer interessante (momento 'me elogiem por favor', sabe?), mas acontece que não existe muita magia em fazer as coisas nesse ritmo rápido que a maioria adora. Não, eu ainda não me transformei num Garfield, apenas acredito que eu deva me portar como me sinto bem.

Eu vou repetir uma série de coisas que, deve ser chato, eu já disse umas quantas vezes - se não foi por aqui, foi ao vivo: desde a história do não procurar pessoas até, quem sabe, aquele papinho (gírias de tiozinho) sobre relacionamentos. Começando pelo tópico do telefone...


* Tópico do Telefone:
Eu gosto de ter o número do celular das pessoas para ligar para elas, sabendo que quem vai atender vai ser uma voz felizmente reconhecível e não um estranho com uma voz bizarra que, com certeza, pensa o mesmo de mim. Raramente ligo para a casa das pessoas, ou melhor: eu raramente ligo. Não que eu não goste de longas conversas do outro lado da linha, mas eu perdi o hábito e já não sei mais conversar assim como antes. Quer dizer, existe um pouco de apreensão também, porque eu nunca sei quando o outro vai ter que desligar. A conta do telefone agradece.

* Tópico do "Eu te amo":
Não, eu não sou efusiva. E existe aquilo de - comunidade do orkut - "não mostrar não é sinônimo de não sentir", não com essas palavras. (Pausa para o 'Tópico do Sinônimo')

* Tópico do Sinônimo:
Eu adoro dizer sinônimo, desde que eu aprendi o que isso significava. Provavelmente, 88% (oitooo!!!) dos meus textos contêm essa ilustre palavra. Eu não vou abrir um outro tópico para dizer que eu adoro inventar estatísticas e não fiz nenhuma faculdade para isso, o que não quer dizer que eu esteja errada...

* Tópico do "Eu te amo" (2):
Eu sou toda dramática e essas coisas, amigos próximos convivem bem com isso (não que os demais não convivam bem - eles simplesmente não convivem, hãhã). Para mim é realmente diferente o significado de vocábulos como 'amar' e 'gostar' (momento brega), então não confunda o que eu digo e não teremos problemas (eu adoro esse tipo de coisa que a gente fala e se sente um xerife de filme). Não é um hábito elogiar pessoas ou querer o bem delas, nem novidade nenhuma que eu prefiro esse tipo de declaração ao vivo e a cores - ou num pedaço de papel, não necessariamente expresso em letras. Tá, eu tentei expressar que imagens podem valer mais ou tanto quanto palavras, mas não fui muito feliz e, de repente, ficou meio 'materialista' - o que não é a intenção.

* Tópico do Outono:
De repente, é minha estação favorita. Fica frio, existem folhas lindas no chão e, enfim, eu acho realmente poético. (Primavera me irrita, Verão nem se fala...) Eu gosto de dias em cinza e sépia. E cachecóis.

* Tópico das Discussões Musicais:
Me deixe constrangida falando de artistas que eu não conheço e são sucessos mundiais. Eu só não sei falar muito sobre - porque eu escuto coisas aleatórias, não tenho nem idéia de quem são ou foram os cantores, tenho poucos álbuns completos e, por sinal, não sei muitas letras decoradas. Cifras então... Mas eu aceito alegremente sugestões e me arrisco a sugerir também.

* Tópico da Confiança:
Hahaha. Eu confio em quem eu acredito que confia em mim e me respeita. Acredito que todos têm uma pirâmide e comigo não é diferente. Sou uma pessoa de poucos e bons, como todo mundo acredita ser...

* Tópico da Impaciência:
Gente polar demais me irrita, gente neutra exageradamente também. Mas nada como um "já acordo sorrindo, vida loka e fé em deus" para acabar com meu bom-humor.

* Tópico da Independência:
Eu sei que eu dependo dos meus pais e essa coisa toda. Até por isso prefiro me comportar como a filha mais certinha ou algo que o valha, não me acho no direito de agir como uma inconseqüente enquanto não sou capaz de responder (sozinha) por isso.

* Tópico da Distância:
Adoro. Acho extremamente necessária para acalmar o enjôo entre as pessoas, preservar a nobre saudade (que revela quem é importante ou não), deixar o indivíduo respirar, pensar, viver do jeito que é, sozinho.

* Tópico do "Não procuro ninguém":
Eu estou há mil anos planejando falar com pessoas que há tempos não vejo. Posso estar numa posição confortável esperando um alô delas ao invés de tentar ao menos fazer um sinal com fumaça, sei lá. Mas eu compreendo o porquê de eu ser assim e não acho que eu saiba explicar de uma maneira que quem lê entenda (é claro que eu estou tentando mostrar um lado positivo de mim ao dizer essas coisas todas, não imagine que eu estou muito feliz aqui digitando sobre o que consideram meus defeitos). Já tentei ser mais acessível, dar um oi mesmo não estando muito inspirada, mas eu odeio esse tipo de coisa. Ou as coisas são espontâneas ou não são: eu não saio do meu conforto para viver mentiras, francamente.

* Tópico da Pressão/Cobrança:
Eu me orgulho muito - mas muito - de não ter pressionado ninguém (se aparecerem respostas contrárias a isso, peço o exame de DNA - ?). Eu detesto que me cobrem alguma coisa, detesto. Qualquer coisa feita por obrigação sai mal feita, porque a pessoa não está nem um pouco afim de fazer e acaba pouco se importando com o resultado final. Não tenho intenção de dar nenhuma indireta com esse texto (vou repetir isso no final, para reforçar). Acho o cúmulo exigir atenção e essas coisas, sejam elas carinho (?) ou demonstrações de afeto ou consideração de qualquer espécie. Até por isso tenho minhas dúvidas quanto a existência da verdadeira generosidade (você sempre espera algo em troca)...

* Tópico das Caveiras da Short Fuse:
Não, eu não aprecio Dark Cute Style: ou tu é tr00 ou tu é bixa, mas caveiras com lacinhos rosas e afins não me agradam. E manda a Hello Kitty pro céu, não pro inferno ganhar chifrinhos - como em camisetas. (Han han)

* Tópico de "Os homens são todos iguais":
Eu estou longe de ser feminista, longe também desse padrão de pensamento de garotas em bando. Ok, eu desenvolvo um assunto sobre isso outra hora... só quis dizer que estou longe de analisar todos genericamente.

* Tópico das Traições:
Eu sigo acreditando que trair em pensamento é pior do que o ato físico, que todos são movidos por razões - ainda que isso pareça desproporcional, que cada caso é um caso e que as merdas entre duas pessoas são resultantes da interação delas e seus problemas (ou seja, se são duas cabeças pensantes a culpa não é de uma só, se é que existe culpa).

* Tópico das Camisinhas:
Providenciarei um abaixo-assinado ao governo do estado implorando para que as camisinhas encontradas na Redenção sejam revertidas em fundos para alguma coisa produtiva - aquilo lá tá um nojo.

* Tópico do Miguxês:
Eu falo português e espero reciprocidade.

* Tópico do Moletom:
As pessoas ficam tão bonitas e gordinhas e quentinhas com eles, que são tão confortáveis. Aiai, adoro!

* Tópico da Sinceridade:
Quando me perguntam uma coisa ou, enfim, eu falo, eu sou sincera - fazer o contrário seria, inclusive, perda de tempo. Então eu não gosto que insistam em se aprofundar nisso numa tentativa de colher provas contra mim, seja lá o que isso quer dizer. Eu já falei algo a respeito, talvez contraditório, sobre esconder certas coisas que eu sei que não serão compreendidas.

* Tópico das "Indiretas":
Eu estou muito satisfeita, não estou trovando ninguém - até porque eu não costumo fazer isso. Portanto, não quero ter que usar a velha frase banana "sou legal, não estou te dando mole". Se eu falo demais ou faço parecer alguma coisa é um ponto de vista, que por sinal eu não compartilho. E eu não acredito num relacionamento a três (ou mais) quando o afeto só acontece entre dois. Sim, eu resolvi escrever e me irritei na metade do caminho, então estou me comunicando de forma grosseira.

Enfim. Depois eu posto algo decente, tenho que estudar. Isso não foi uma indireta para ninguém (falar isso já é uma contradição, mas tudo bem...). Eu apaguei o que estava escrevendo antes, talvez seguisse pela linha cômica e não me deixasse de mau-humor. Mas a culpa é minha e do carro de amaciante que tá dando voltas na quadra há umas vinte horas.




terça-feira, 6 de maio de 2008

A História de Anna.

Anna!
Anna!
Anna!
Anna...
Sentou sorridente no assento de madeira pintada, embalada pelas mãos que lentamente impulsionavam as correntes. As mechas do cabelo loiro encaracolado pareciam fugir do seu rosto, enroladas em fitas delicadas. As pernas seguiam em sentido contrário, desejando ir de encontro ao céu azul.
O campo era nada mais do que a extremidade de um penhasco, desses cuja distância até o chão parece infinita. A árvore secular, o balanço antigo, o frio amargo. Aquele vai-e-vem parecia digno de outro mundo: nada se escutava, senão o ruído dos galhos e do desgaste do ferro. Sem pássaros para gorjear, sem borboletas para roubar o olhar da menina.
O vento úmido afastava todo e qualquer pensamento, todo e qualquer problema, toda e qualquer emoção.
À altura daquele pedaço de terra, um campo amarelado, à metros dali. Não tinha muitos atrativos, senão o mistério sobre o que era capaz de esconder. O silêncio é inimigo do tempo: quem tarda a responder, justifica mentindo. Pensar demais é sinônimo de se enganar.

Anna apertou as mãos magras com força, deixando o resto do corpo relaxar. Estava dormindo acordada, maravilhada com a possibilidade de voar. Seria, enfim, livre. Livre de sua condição de criança - cuja voz é calada sem piedade pelos mais velhos, livre da opressão, livre das barreiras que a separaram dos seus desejos. Livre, por fim, do medo.

Fechou os olhos e sentiu o ar invadir sua boca, passando pelos dentes e fazendo cócegas na língua. Uma canção se iniciou, projetada pela voz fina, feminina, infantil. As pontas do cachecol dançando no ar.
De repente, não mais que de repente, o balanço começou a perder a velocidade: as mãos que o embalavam agora estavam afastadas. O vulto escuro descia por uma pequena estrada de lama que se fez na grama, sorrateiro, sem cerimônia.
Anna, enfurecida, moveu os pés para frente, viajando em suas lembranças mais platônicas. Estava tão mais perto das vozes que um dia ouvira e pareciam não ter dono, estava tão mais acima de qualquer expectativa, tão próxima de qualquer amigo irreal. Gostava de falar com objetos, era fato, mas não compreendia porque isso era tão errado para os outros.
Anna!
Abriu os olhos num susto.
Anna!
Sentiu a saia do vestido tomar a forma de um balão.
Anna!
Abriu os braços o máximo que pôde e, indecisa quanto ao que esperava, mostrou os dentes num largo sorriso: lá estava ela, mais alto do que qualquer um já estivera, vendo toda a beleza dos campos coloridos se misturarem num só. E mais, muito mais: o campo amarelo - ela agora sabia o que ele tanto preservava...
Anna...
Os gritos de sua mãe não foram o suficiente para salvar sua vida.
Não houve vulto, não houve emoção, não houve razão naquele pulo desesperado, pensou a mulher.
Mal sabia ela que aqueles minutos de silêncio foram o bastante para que sua filha encontrasse o que uma vida inteira no mundo dos homens não lhe proporcionaria.



segunda-feira, 5 de maio de 2008

Lobo

- Eu te odeio! ...Eu quero entender porque você sempre faz isso, sempre!
- Isso o quê?
- Você me afoga, me afoga e depois me salva. Então, sorri para mim, como se eu tivesse obrigação de estar satisfeito.
- Eu não entendo do que você reclama. Você pede ajuda e eu nunca me nego a ajudar.
- Você se oferece, é assim que você consegue as coisas. Se oferece em doses, se oferece até se tornar rara. E, então, eu não te encontro mais... em lugar algum.
- Nesses dias nem eu mesma me encontro. Você sabe disso, sempre soube.
- Eu não sei mais o que pensar. Se eu estou bem, você me deixa tão mal. E me faz tão bem ao mesmo tempo.
- Eu não tenho culpa de você sentir as coisas desse seu jeito estranho. Tudo o que eu posso fazer é não fazê-lo sentir, sumir por aí até que as coisas se resolvam.
- Fugir. Você não percebe que é o que sempre faz? Você foge, foge correndo até um porto que lhe pareça seguro. Desaparece como um navio no mar e, depois que eu já me acostumei com toda a dor da sua ausência, você volta e começa tudo de novo.
- O que você espera de mim? Se eu não gosto de você tanto quanto você espera, o que eu tenho que fazer? Eu já tentei de tudo, eu só quero viver a minha vida.
- Longe ou perto de mim?
- Com distância suficiente.
- Suficiente?
- Eu não gosto de saber que você sente minha falta, mas é perda de tempo eu ficar te anestesiando com minhas mentiras disfarçadas. Palavras são como pílulas: podem se tornar um vício, escassas, podem te curar em minutos, podem te enganar também.
- Às vezes eu gostaria de não te entender, minha querida.
- Tanto faz, você nunca entende. Apenas acha que o faz.
- Porque você diz isso?
- Porque você é um tolo. Desses tolos apaixonados de filme, que idolatram tudo o que eu falo sem perceber a maldade que existe por trás. Eu te quero bem, mas não te quero. Você finge para si mesmo que entende, porque não suporta o pensamento de que você está sozinho no mundo e a única pessoa por quem você...
- Você não é a única. Nunca foi.
- 17:51. Está anoitecendo. Então, é agora que você levanta o rosto e resolve se mostrar indiferente?
- Você é fria, é fria porque é nojenta. É egoísta, é cega, é imoral.
- Eu não preciso de moral.
- Você diz isso porque não sabe o valor de um olhar sincero. Sempre mentiu por diversão.
- Não, eu não me divirto com essas besteiras. Sinceramente, você me dá pena.
- Vai embora agora? Fugir como você sempre faz?
- Qualquer passo para longe é sinônimo de fugir, pra você?
- Foi tudo o que eu aprendi.
- Ok. Chega. Não vamos nos desviar do assunto inicial...
- Você estava dizendo que as pessoas precisam de relações falsas para se sentirem...
- ...se sentirem completas. Elas sabem que estão em um ninho de cobras, que ninguém dali se importa realmente, mas elas precisam dessa afirmação de que número é qualidade.
- Tá, então você disse que confia mesmo em duas pessoas...
- Três.
- E a sua lista de nomes?
- É uma lista de nomes, ora. São palavras, não pessoas. Você ouviu o que eu disse sobre as pílulas.
- Ok, entendi. E você, nessa vida de andarilho, não sente falta das coisas que passaram?
- As coisas passam, passam o tempo todo. Eu estou tentando me desfazer das memórias que eu não gosto, como todos geralmente fazem, mas eu não sou boa nisso.
- Você é boa em fazer os outros esquecerem. Talvez exista alguém que te faça esquecer também.
- Mas, sabe, esquecer é um crime. É como se eu apagasse parte de mim, como se eu não tivesse vivido realmente o tempo que eu esqueci.
- Você não vai lembrar que ele existiu.
- Mas ele existiu. Os meus olhos viram. Eu não posso esquecer algo que é só meu, que ninguém tem igual. É tão precioso...
- Você vem e vai e você é esquecida. Faça o mesmo com os outros. Esperei ouvir isso de você.
- Não, não, nunca. Eu gosto de pensar que eu superei. Seria fraca se não enfrentasse tudo de frente.
- Atitudes nobres não servem de armadura. Seu peito parece apedrejado.
- E o que entende você disso? Você que chora por uma pessoa que sequer...
- Eu não preciso que você goste de mim para eu existir.
- E todo o drama de cair e levantar, o que foi aquilo?
- Eu estou dizendo que eu sei que você vai me salvar. Vai passar a vida me chutando, mas vai me curar também. Só que eu não tenho poderes, não tenho nada que consiga vencer essa sua barreira gelada.
- Você fala dela, mas eu a desconheço. Para mim, as pessoas são todas insuficientes, só isso.
- O que não te deixa triste te irrita. Isso é errado.
- Não é errado! Eu fico entendiada com o que não me traz emoção.
- Você fala em aproveitar, fala das coisas pequenas, dos sabores e dos defeitos e esquece que você também é feita disso.
- Eu sei falar das coisas que eu gosto.
- Se concentra no que você é.
- Eu não tenho que ouvir uma pessoa que está abaixo de mim.
- Então agora eu estou abaixo?
- Você está atirado aos meus pés, como sempre. Você está cego pela imagem que você idealiza de mim. Eu não sou a cereja do bolo, eu fujo porque não sinto sua falta. Eu volto porque gosto que você dependa de mim.
- Acabou?
- Não. Eu não sei qual é a minha motivação. E a partir do momento que eu for embora de vez você também não vai saber.
- Ah, como eu gostaria de não te entender... Porque você acha que eu quero tanto te fazer ficar?
- Achei que você precisasse de mim.
- Você precisa que alguém precise de você. É isso que te faz ficar. Você se prende nessas memórias todas, com medo de ser esquecida como você é incapaz de fazer. Você é deprimente porque você não foge disso, não busca o real sentido, apenas se conforta com as lamentações passadas. Você tem medo de mudar e...
- ...ser esquecida. Pelo menos você eu sei que não vai me esquecer.
- Mas eu estou ficando enjoado! Foi por isso que te chamei aqui, para dizer que o amor que eu sentia está se transformando em cinzas.
- Você está me deixando.
- Não.
- Você vai fugir, vai fugir! Você encontrou o que queria, você sugou de mim o que precisava e agora está fugindo com as minhas coisas!
- Eu vou ficar do seu lado até minha doença passar. Não quero te fazer sofrer o que eu sofro.
- Você me enganou. Disse que estava fraco esse tempo todo e agora me faz precisar das suas pílulas.
- Eu não vou te sufocar de novo. Estaremos suficientemente longe um do outro.
- O que eu faço? Você me deixou no chão, me ensinou a ser transparente e agora me violenta por eu não saber me esconder.
- Não é verdade, minha querida. Não é verdade.
- Você contou para alguém? Disse o que eu fiz?
- Eu sou impulsivo, você sabe... mas não há possibilidade disso se espalhar por aí.
- Você é bobinho, é claro que a minha máscara caiu. Você confia nas pessoas desconfiando e não sabe esconder isso. Logo, elas sentem o cheiro do perigo, da desconfiança e acham que você é perigoso, que não podem confiar em você.
- Eu não sou assim com todo mundo. E nem todos têm teus olhos de gavião.
- Eu deveria correr. Você me faz mal, eu deveria fugir de você.
- Você sequer pertence a mim. Não há o que temer, você ainda é uma mentirosa. Eu não acredito no seu drama, minha querida.
- É claro que não, você é cego. Tão cego que precisa de mim até os ossos. Eu poderia roubar seu dinheiro, te abandonar sangrando na estrada e você ainda se lembraria de mim com um sorriso doce nos lábios.
- E ainda não se sente amada?
- Não. Porque não é natural. Você gosta de mim porque eu quero que goste.
- Sua última tentativa de se tornar insuportável foi um fracasso.
- Qual o meu problema afinal?
- Eu já te disse: você não tem rumo. E vai continuar dando rodeios até que seus tropeços lhe ensinem a caminhar.
- Você fala bonito, mas sai tudo da boca pra fora.
- Talvez você seja incapaz de entender as pessoas. Agora me ocorreu essa idéia... de que você só escuta, escuta animada porque é incapaz de ver as coisas da mesma maneira, de viver no mesmo mundo.
- E se for verdade? E se tudo que eu quisesse era não me sentir um marca-texto entre as canetas esferográficas?
- Eu não te acho nada convicente. Achei que gostasse de ser o centro das atenções.
- Eu queria alguém como eu.
- Você não confiaria totalmente nessa pessoa.
- Nem ela em mim. Estaríamos quites.
- Você deve se desprender das coisas que a marcaram, para que novas tenham chance de te preencher.
- E se eu sentir vontade de fugir no meio do caminho?
- Vá. Mas sem culpa.