sábado, 1 de novembro de 2008

Sopro

Perguntou primeiro se algo havia mudado, se as coisas tinham mudado de cor. Obteve um não bem exclamado como resposta. A pergunta seguinte fora sussurrada, à beira de um assobio manso. Não queria discussão: bastava um sim ou um não. Simples assim. Sem frescuras ou ameaças do gênero "se você confirmar essa história, eu faço as malas e parto hoje mesmo" - mesmo porque esse tipo de frase não costuma passar muita confiança, nem mesmo para quem a pronuncia. Queria ouvir o que ele tinha a falar e, se caso não existisse algo para ouvir, consentiria com um "tudo bem" - mais uma vez em tom de voz baixo, de timbre adocicado. Nunca entendeu o porquê dos gritos, das encenações que se criam sobre problemas tão tipicamente humanos. Perguntou, sem rodeios, se ele tinha beijado outra. Não usou a palavra traição - até porque o significado disso é bem diferente para cada indivíduo; até porque é mais fácil admitir os malfeitos se a própria vítima não encarar o ocorrido com olhos arregalados. Se surpreendeu com a negação que mais parecia um texto de reticências, mas não se atreveu a repetir a dúvida em voz alta. Aquele pesar todo não fora de graça, nem desprovido de alguma intenção: primeiro se prepara o terreno para, depois, atear fogo. Não houve contato visual nem toque de mãos: ainda não inventaram um telefone tão cheio de recursos... Alguns minutos depois, a confirmação fora inevitável - a explicação também. A situação fica crítica quando o maleficiado consegue concordar verdadeiramente com o autor do crime. Não fora nada digno de uma manchete no jornal - e grande parte disso se deve ao fato de ela não ter suspeitado nem um pouco da inconsistência da notícia: assim que soube, questionou-o com calma e sabedoria. Melhor assim: não houve teatro, nem promessa, nem sermão. O que ficou talvez tenha sido uma pequena cicatriz, daquelas que te fazem crescer assim que se formam na pele - o tempo nunca é insuficiente para o aprendizado (há quem diga que é o contrário!). Um pouco de amargura, talvez. Mas o fato é que não fora uma verdade doída, do tipo sentida e absorvida, mas uma inconstância evitada pelo cotidiano da vida moderna. Seria mais fácil deixar os dias varrerem os cacos para longe, afastarem a ruína do centro das atenções - e não foi muito diferente quando ela disse, mais uma vez, que "tudo bem". Não existia mala para ser feita ou adeus para ser dito, mas um abraço sincero como prova de que as relações têm disso também, desses tropeços no caminho. E não existiu um sentimento de vingança, senão o da infelicidade momentânea: não aconteceram atitudes que seriam diferentes caso a resposta para a pergunta fosse outra. Ele sentiu alívio, sorriu sem entender - talvez porque fora perdoado antes mesmo da reflexão, talvez por achar tudo aquilo muito leviano. Ele estava acostumado com regras, penalidades, perfeição de mentira. Ela estava acostumada a fechar os olhos - no clímax de um beijo e à beira dos precipícios.


Um comentário:

Cazú disse...

Eu sinto medo de quedas - conversas assim, normalmente nunca terminam bem...

Formidavel(bah, palavrinha de desenho)!

E.. O lance da frase inicial das malas é bem certo, né?!Tipo, nem quem tá falando, acredita que vai tomar tal atitude.É tão vã, quanto a clássica: "Ou isso, ou eu...".

Mas... Apesar de serem produtivas, bem produtivas - essas conversas me metem medo - e de fato são perigosas!

Feliz de novo, por estar aqui outra vez^^

Beijos!