quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Camomila

E ficou a mexer a colher, observando o redemoinho de achocolatado que se formava sobre o leite morno. Olhava para o conteúdo da caneca sem realmente ver nada, indiferente. E quem se importa se o pó é dissolvido totalmente? Ela nem pensava nisso, não naquele momento. E, se é verdade que as coisas só existem quando consentimos sua presença e participação na nossa realidade, aquela colher, aquela mesa e todo o cenário estaria comprometido se dependesse apenas da vontade de Luísa. Contudo, felizmente ou não, aquela cozinha ainda era bem concreta, com todo o cheiro característico de pão a que tinha direito. Não foi obra minha: veja bem, eu nem participo da história - apenas apresento os fatos. O que não posso é dizer o mesmo de Ian: a culpa do pequeno apartamento não se transformar em ruínas foi toda do rapaz, que ainda lembrava de cada centímetro do lugar. Cada centímetro é realmente um exagero, ainda mais para ele: alguém que está sempre preocupado, ansioso, perdendo chicletes que caem dos bolsos, certamente não sabe dizer muito sobre a riqueza de móveis e paredes nuas. Ela costumava gostar disso, costumava achar adorável a desatenção do cônjuge. E não é que tenha deixado de gostar da característica... o caso é repetição do ocorrido no início: passou a olhar sem realmente ver. E essa não é uma história para narrar como é possível que um relacionamento tão forte tenha suas bases, suas fontes de afeto, destruídas ao longo do tempo ou pela convivência acumulada - como se dissolve achocolatado no leite. Se engana, também, quem imagina que os dois estejam juntos vivendo uma realidade mágica, de contos de fada. Fisicamente, Ian e a namorada parecem irmãos: os cabelos loiros do sol, desgranhados, encantadores e macios. Carregam dores diferentes no olhar: os olhos dela são mais cinzas, mais parecidos com a tempestade. A íris verde do olho dele não é capaz de falar muito por si só, mas traz um brilho irresistível. E caminhavam juntos no calçadão da praia, de mãos dadas, passos retos e constantes, porém com destinos diferentes. Dificilmente se cruzavam em sonhos e devaneios de apaixonados. Luísa tomava muita água durante o dia e muito café durante a noite, para se manter acordada. Ian chegava de madrugada, fazia torradas e sentava ao lado da amiga e amante no tapete felpudo da sala, para saber as notícias do dia - que nunca eram muitas, mas serviam de aperitivo para a lista de músicas que os embalava num sono aconchegante duas horas depois. A rotina mudava em sextas e domingos, quando pediam pizza ou dormiam em outras casas. Ele não gostava que a namorada visitasse Marcela, mas não interferia na amizade das duas. Por sua vez, ela não gostava de tê-lo distante, com o celular desligado: a verdade é que ele não dizia onde ia. Nunca disse. E por maior que fosse a certeza dela, sempre existia uma voz que repetia a dúvida "ele volta?". E, naquela noite, ele ainda não tinha chegado. Dentro de três horas o amanhecer seria inevitável - e, conseqüentemente, a tempestade também. Não falo da tempestade que vem do céu, mas daqueles olhos tão femininos e pequenos de pupilas dilatadas. Pouco importava o leite derramado ou a tal da Marcela, que a ficara esperando na porta de uma casa noturna: Luísa fazia do redemoinho marrom o seu relógio, onde a inconstância servia de ponteiro. A manteiga ficou sobre a mesa limpa, do lado dos pães - de cujos aromas já não eram os mesmos. Talvez fosse mais fácil resumir tudo com uma frase que expresse saudade, mas o sentimento humano vai além das palavras. Tampouco era tristeza o que sentia a bela moça. Digo bela, mas ela pode ser feia também - pouco importa sua aparência. Ninguém é tão bonito às quatro horas da manhã. Nem mesmo Ian, que girou a chave na fechadura uns dezoito minutos depois de Luísa adormecer sobre os braços. E, por mais desligado que ele parecesse, entendeu que havia algo errado: ao invés de café, chocolate; ao invés de um beijo macio e quente, um pedido silencioso de colo. Eu não hesitaria em dizer que a jovem se sentia como uma colher ou qualquer coisa material que precisa da devida atenção para se sentir viva, mas não seria justo com ela expressar a minha visão como sendo uma verdade universal. Só ela conhecia o que estava escrito nos olhos verdes do rapaz de cabelos de camomila - e o segredo e a moral da história dependem, primeiramente, dessa informação.


2 comentários:

Ricardo Cavalera disse...

Sabe, eu gosto da maneira como as histórias são escritas. Forma simples, comparações, cotidiano, torradas...etc.
As histórias realmente boas, mas algumas vezes, por alguns momentos, eu realmente em sinto um tanto triste por causa delas.
Acho que de alguma forma quando eu estou lendo elas meio que se tornam reais durante breves momentos, bem, ao menos para mim.
Acho que na realidade esse é o objetivo de um conto, de um contista em si. Criar a realidade a partir de palavras. Imitar Deus.
Bom trabalho.
PS.: Gosminha tu podia deixar como definição, retardado.hauhauha. ta retardado não, mas infantil, alguém imaturo.
: p

Ricardo Cavalera disse...

Tri que quando eu postei, teu blogger disse que eu estava assinando como "Anônimo Ricardo Cavalera".
Eu sei me disfarçar muito bem obrigado. Total anônimo.