terça-feira, 24 de julho de 2007

The End

*Inspirada pelo último post do Gui.
Quando eu fui na Santa Casa, com um pessoal da escola, ver o trabalho de alguns profissionais da área de saúde e enfim, a declaração da psicóloga estagiária de lá foi bem hummm "de impacto". Sabe, tu tem que confortar a família de pessoas muito doentes que, se chegarem a sair com vida de seu leito hospitalar, carregarão sérias seqüelas para o resto da vida. Além de preparar a família dos pacientes, para recebê-los com o máximo de naturalidade, o "trabalho emocional" é feito também com eles. Idosos, crianças, adultos, jovens. A moça disse que era um trabalho bem complicado, porque em grande parte dos casos, a chance de recuperação é zero. Acho que era o setor das crianças com câncer, o que eu fui. Ela explicou o procedimento das cirurgias, onde a criança é acompanhada por um dos pais até uma sala, se distrai um pouco e depois, enfim, acontece o procedimento cujo final é decisivo: ou as coisas melhoram bastante ou... simplesmente acabam. Para sempre.
Enquanto ela explicava, uma criança com roupinhas verdes do hospital seg
uiu pelo corredor macabro e branco, dando a mão para sua mãe, que usava uma máscara branca, dessas de dentista. Cara, aquela cena foi realmente de arrepiar. Uma vontade de fazer alguma coisa, de mudar o destino daquelas pessoas, de poder transmitir alguma segurança de que tudo daria certo... Vontade de, uma vez na vida, poder ter certeza que o otimismo tem algum fundamento concreto.
Eu não sei que fim levou aquela criança, nem outras milhares. Sei lá, são coisas para se pensar e se sentir vulnerável. Crianças apresentam maior força de vontade, apesar da dor ser forte. Não têm exatamente uma crença, eu acho, mas também não tem noção do que está realmente acontecendo. Quando alguém desconhece suas limitações, tende a vencê-las. É bem mais difícil alcançar algum ponto quando todos a sua volta dizem que suas ações serão em vão, que é um sonho impossível de ser realizado.
Se tem um tipo de gente que eu abomino são esses "donos da verdade", que insistem em deixar os outros para baixo por pura amargura. Mas o assunto não é esse. Eu conheço um cara que presenciou o suicídio da mãe, quando criança. Puxa, eu nunca consegui me aproximar dele direito. Um pouco por uma estranha admiração, que servia de barreira para a naturalidade, outro pouco porque eram bem conhecidas as suas tendências depressivas e coisas assim. É diferente conversar com alguém inconformado
com a vida que tem e conversar com uma pessoa com um problema bem mais concreto do que abstrato. Não sentia pena por ele, mas sei lá.
Isso que eu disse entra em conflito com um outro pensamento: aquela história de que não se sente falta do que nunca se teve. Não tenho pena de quem nasce cego, por exemplo. Claro que nunca ter o prazer de enxergar as cores, as formas, a natureza, a si próprio deve ser algo realmente triste mas, por pior que seja ter esse sentido deficiente, essa pessoa vai se adaptar ao mundo real bem mais facilmente do que aquele que enxergou durante parte da vida. Antes de qualquer outra coisa, a visão está ligada diretamente com a confiança. Feche os olhos e atravesse alguma avenida movimentada, na hora do rush, dando o braço para alguém. Você vai depender do cuidado dessa pessoa, do que ela está fazendo com a sua vida. (Ok, isso ficou dramático.) E tem outros fatores, é claro... o medo não vem realmente do que vemos, mas do que não podemos ver. Se, de uma hora para a outra, deixarmos de enxergar, vamos encontrar perigo em tudo...
Esse cara de quem eu falei e um outro deixaram gravadas umas coisas nas minhas memórias. Bem sobre o que o Gui falou no post dele... morte, espiritualidade, razões e emoções (tri música do nx zero hahaha). Eu adoro pessoas que não te encaram nos olhos, com olhares vagos e cinzas e coisas assim. Quando eu digo "cinzas" não me refiro exatamente à cor. Claro que os indivíduos que te comem com os olho
s também são um pouco interessantes, mas não vamos descartar os demais. Se é pelo olho que você conhece o interior da pessoa, não conseguir captar essas informações é algo realmente agoniante - mas de forma gostosinha. Não deixa de ser um mistério e até um charme esse excesso de timidez.
Tá, eu esqueci o que eu ia dizer, do segundo cara, do post do Gui e tudo. E lembrei subitamente que eu sempre lembro de olhos bovinos em momentos peculiares, sei lá porque. Eu penso naquele fator de que as pessoas transformam as outras. É para isso que elas servem. Você tem um filho, se torna responsável, se conscientiza sobre coisas que antes não se mostravam importantes, aprende a escolher as fraldas que vai comprar. Ou não. Mas, enfim, por mais desprezível que uma pessoa possa ser, o papel dela é justamente esse - ser reconhecida como uma pessoa desprezível.
Se, segundo anexos em Power Point de e-mails antigos, a vida é um teatro, uma peça, um palco ou o que for, as pessoas do mundo são os personagens. Mocinhos, vilões, neutros... Eu gostava de pensar que, terminada a missão de cada uma, elas morriam. Não assim, do nada, caindo no chão e dando adeus. Só que isso foram cosias que eu aprendi na escola, que servem de consolo naquelas horas onde ninguém é ateu. Nas férias, eu afirmei algo do tipo "oh, eu acredito em Deus". E eu fiquei pensando nisso ontem.
Eu não acredito na justiça divina, não acredito que exista um ser que é total a
mor e um que é um ser horroroso e malvadão, não acredito. O Bem e o Mal coexistem, dentro de cada um. Ninguém age puramente por instinto sem sofrer influência de uma dessas duas forças. Não acredito no deus dos cristãos, nem nos milhares de deuses do Olimpo. Também não vejo deus como um velhinho no ônibus, como fala uma música - que, por sinal, eu adoro.
Eu sei lá porque eu disse que acreditava. O fato é que eu não tenho provas de que ele existe e acho esse pensamento apelativo uma enorme fraqueza da minha parte. Eu cresci ouvindo histórias infantis e lendo Bíblia para pirralhos, com minha avó me levando para tomar passe e coisas assim. Só ela fazia essas coisas comigo, meus pais nunca se mostraram religiosos nem nada. Só que isso só me fez ser uma revoltada. Eu já procurei, do meu jeito, essas ajudas divinas milagrosas e elas nunca chegaram. Aí entram declarações de blasfêmia e sei lá o que, ou que eu fui incapaz de perceber os sinais... mas, sabe, eu não vi porra nenhuma. Nunca me confortou imaginar que vai ter um tio lá - que eu não vejo - que me salvará de algumas dificuldades, ou que vai pesar minhas ações na Terra. Sabe, as escolhas que a gente faz dizem respeito ao nosso conhecimento, vivências pessoas, coisas que mesmo Deus é incapaz de entender. Ele é Deus, não é a Ivy. Não é humano.

Claro que existiram aquelas apelações bem toscas. "Se você existe, apareça agora! Anda, anda, não se faz!". Eu deveria estar na sexta série quando pensei que deveria seguir a minha hum... vocação para ser freira. Só pra ver se o filho responderia alguma pergunta. Claro que eu descartei isso bem rápido. O mundo capitalista competindo com os votos de pobreza e celibato... bem, isso é um caso perdido. Para mim, é. Talvez eu ainda tenha alguma esperança por aquele fator de público dos filmes Matrix. Quem assiste, sempre se sente um pouco o Escolhido. E tem todo o apelo para Messias e coisas assim, ainda que seja uma mensagem subliminar. A crença no salvador, no fim dos tempos... enfim, a própria conspiração dos Sr.'s Smith. Mas eu não sei construir um texto em cima disso. A intenção mesmo era mostrar meu desconforto em relação ao desconhecido. E porque não dizer que existe vida atrás do espelho?
Ok, vou ler agora, preciso me desligar desse meu "eu pensativo".


- Eu e o Gui, no Simulado. ~(:

Um comentário:

Gui Ferreira disse...

ooouuunmmmm
que bonitinho, fico mega emocionado qdo tu fala de mim ***.***

hahaha essa foto ficou muito engraçada, ficamos com uma cara tipo de "huhummm", sei lá.
Esse negócio de morte me deixa meio 'down', digamos, e eu adorei o modo como vc falou das criancinhas com câncer. É triste ver esses serzinhos cheios de energia e esperança - esperança no desconhecido - não importando muito o que será desse novo mundo. Parece que eles aceitam td mais fácil, como se não importasse o que viesse, mas sim, que viesse... acho que é porque eles ainda não aprenderam os conceitos e regras da sociedade que depois de uma determinada idade ficam enraizados na nossa cabeça, dizendo que a gente deve chorar em momentos tristes e sofrer com o inevitável...

sei lá. Viajei de novo XDD. As vezes é interessante esse jogo de descobrir quem é o outro, de não olhar os olhos e eu tb tenho medo às vezes do desconhecido. Mas já que eu posso escolher pra onde eu quero ir, que caminho eu devo seguir, não é tão desconhecido assim. Acho que sempre temos opções. Menos em se tratando de morte.

Beijão Ivy!!